Neurocientista explica por que cuidar do sono, do corpo e dos relacionamentos é essencial para uma vida emocional e espiritual saudável

É possível passar o dia inteiro conectado e terminar a noite se sentindo sozinho. É possível estar cercado de pessoas e, ainda assim, não conseguir conversar sobre aquilo que realmente dói. É possível chegar ao fim de uma jornada de trabalho exausto, dormir poucas horas, acordar cansado e repetir tudo novamente no dia seguinte. Aos poucos, o corpo pede descanso, a mente perde fôlego e até aquilo que antes trazia sentido começa a parecer pesado.
O problema é que esse desgaste nem sempre termina na saúde emocional. Quando a mente está sobrecarregada, a vida espiritual também pode sentir os efeitos. A ansiedade pode tornar mais difícil esperar. O esgotamento pode tirar a disposição para a oração e para a convivência. O excesso de estímulos pode dificultar o silêncio. O isolamento pode enfraquecer vínculos e empatia. E a pessoa pode começar a questionar por que não consegue mais sentir, confiar ou viver a fé como antes.
Esse cenário ganha ainda mais relevância neste 10 de outubro, Dia Mundial da Saúde Mental, data criada para ampliar a conscientização sobre os transtornos mentais, combater o estigma e estimular o cuidado. A preocupação está longe de ser pequena. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 1,2 bilhão de pessoas no mundo viviam com algum transtorno mental em 2023, o equivalente a quase uma em cada sete pessoas. Entre os problemas mais frequentes estão os transtornos de ansiedade, que atingiam aproximadamente 470 milhões de pessoas, e a depressão, com cerca de 322 milhões.
No Brasil, os reflexos também aparecem de maneira concreta. Em 2025, foram concedidos 546.254 benefícios por incapacidade temporária relacionados a transtornos mentais e comportamentais, segundo dados do governo federal. Apenas os transtornos de ansiedade responderam por 166.489 benefícios, enquanto os episódios depressivos representaram outros 126.608.
Mas por trás dos números existem rotinas. Existe o trabalhador que não consegue desligar o celular depois do expediente. O pai ou a mãe que dorme pouco e tenta dar conta de tudo. O líder religioso que acredita precisar estar disponível o tempo inteiro. O jovem que passa horas diante de telas e já não encontra prazer nas atividades que antes gostava. E existe também quem frequente uma igreja, ore, leia a Bíblia e continue cumprindo suas funções, mas esteja emocionalmente esgotado por dentro.
Para a neurocientista e PhD em Neuropsicofarmacologia, Dra. Quézia Anders, um dos principais pontos de partida para compreender esse processo está justamente em algo que costuma ser negligenciado: o sono. “Principal vilão é a privação de sono, porque daí piora a ansiedade, a pressão do trabalho, o controle sobre uso de telas, etc. Tudo vem do desequilíbrio dessas demandas”, explica. O sono ruim, portanto, não aparece isolado. Ele pode alimentar um ciclo no qual ansiedade, cobrança, excesso de estímulos e cansaço passam a reforçar uns aos outros.
E esse ciclo tem um componente cada vez mais presente na vida contemporânea: as telas. O problema não está simplesmente em possuir um celular ou utilizar redes sociais, mas no excesso de estímulos ao qual o cérebro é submetido diariamente. “Muita dopamina por excesso de estímulo gera falta de ânimo para as outras demandas da vida, além de uma sensação maior de cansaço porque as telas saturam o cérebro, deixando menos capaz de se conectar com algo e com os outros”, afirma Quézia.
Quando o cérebro não encontra espaço para desacelerar, o silêncio pode se tornar desconfortável. E isso alcança diretamente a espiritualidade. A oração exige presença. A leitura bíblica exige atenção. A comunhão exige disponibilidade para ouvir. Até mesmo a capacidade de perceber o sofrimento de outra pessoa depende de espaço emocional. Uma mente permanentemente estimulada pode ter dificuldade de encontrar esse espaço.
Sofrimento mental não é falta de fé
O mesmo vale para a ansiedade e a depressão. O sofrimento psíquico não significa falta de fé, mas pode interferir na maneira como a pessoa experimenta sua espiritualidade. “Ansiedade, depressão e todos os transtornos mentais afetam a capacidade de ter fé, confiar em Deus, ter paciência na direção dEle, alterando também as relações porque nesses casos, a pessoa precisa se cuidar antes de qualquer coisa”, explica a neurocientista.
Essa interferência pode ser particularmente dolorosa para quem cresceu ouvindo que deveria simplesmente “confiar mais em Deus”. A pessoa continua acreditando, mas está cansada. Continua orando, mas não consegue organizar os pensamentos. Continua frequentando a igreja, mas perdeu a capacidade de desfrutar da convivência. Continua servindo, mas já não consegue cuidar de si. É justamente nesse ponto que a saúde mental precisa deixar de ser tratada como um assunto secundário dentro das comunidades de fé.
Para Quézia, os transtornos também podem comprometer processos cerebrais relacionados à elaboração de pensamentos complexos. “Sempre que existe algum transtorno, existe uma dificuldade na fé saudável, porque todos os transtornos afetam a área cerebral que envolve pensamentos complexos e é a região do cérebro que entendemos Deus, processamos informações etc, que é o pré-frontal”, afirma. A observação ajuda a compreender que a dificuldade espiritual experimentada por alguém adoecido não deve ser automaticamente interpretada como rebeldia, frieza ou afastamento voluntário de Deus.
Fonte: Comunhão
Pastor Azevedo Ministério Avivamento no Altar